segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Maria João Brito de Sousa

 

Autora de "Poeta Porque Deus Quer", publicado em Março deste  ano, Maria João Brito de Sousa mantém alguns blogs dos quais destacamos o  Poetaporkedeusker e uma Galeria Online onde expõe as suas pinturas.


Maria João, fale-nos de si...

Nasci na Clínica Pro Mätre, na Av. da República em Lisboa, mas não me lembro lá muito bem. Do que me lembro muito bem foi de ter crescido em Algés, na Rua Luís de Camões, 91A e B. Para mim era a "rua dos abrunheiros" pois, há muitos anos atrás, a rua mais parecia um intervalo longo e alcatroado entre dois infindáveis canteiros de abrunheiros que eu amei desde que me lembro de existir. Iniciei os meus estudos no Colégio Gil Eanes, também em Algés, mas acabei a instrução primária com uma professora que me vinha dar aulas em casa. Era a D. Ermelinda - a minha mãe chamava-lhe, carinhosamente, Pim - , uma senhora já não muito jovem, baixinha e com uma imensa paixão pela História de Portugal. A Pim tinha muito orgulho em já ter dado aulas ao "nosso rei", conforme dizia. Referia-se a D. Duarte Pio, claro.
Foi no Liceu Nacional de Oeiras que concluí o Curso Complementar dos Liceus. Quem por lá passar, ainda por lá encontrará raízes minhas... tenho - penso que sempre tive e sempre terei - uma estranha e intensa afinidade com as árvores.
Casei em Oeiras, aos dezanove anos de idade, pelo Registo Civil que, nesse tempo, se situava junto à Câmara Municipal. Trabalhava então na Agência Abreu e aluguei uma casita em Paço de Arcos, junto à estação da CP. Engravidei logo de seguida e vim morar para a Quinta das Palmeiras, em Nova Oeiras, para um apartamento próprio que até hoje é a minha morada, o meu cantinho.
Tenho três filhas que por sua vez também têm uma filha cada uma. O único rapazinho morreu durante o trabalho de parto.

Quando começou a escrever ?

Quase juraria que comecei a escrever mal comecei a respirar... mas estaria a exagerar. Penso que foi assim que pude pegar num lápis! Comecei a escrever muito cedo mesmo. Como as primeiras revistas que me apaixonaram foram as de BD da Walt Disney que o meu pai coleccionava - escritas em Espanhol do México - as minhas primeiríssimas tentativas de escrita foram, também, em formato BD, numa estranha mistura de Português com Espanhol. Era uma autêntica "salada Ibérica". Antes disso, o género foi a Poesia que o meu avô registava e datava pois eu tinha menos de três anos. Infelizmente a esmagadora maioria dos meus poemas da primeira infância acabaram por se perder nas sucessivas mudanças de residência dos meus pais.
Tenho neste momento seis blogs, mas vou referir-me, essencialmente, ao Poetaporkedeusker, o meu primeiríssimo passo online e uma das minhas razões de viver...
Fui um tanto ou quanto suicida quando, subitamente e após ter descoberto o Poesia em Rede, do Sapo, me propus "construir" um blog sobre soneto clássico. Eu não fazia a menor ideia do que fosse um blog, de como se processava o intercâmbio de opiniões... de coisa nenhuma, em resumo. Era a ignorante mais ignorante que possam imaginar! Mas era, também, a mais teimosa que possam conceber e a coisa lá acabou por resultar...
O Poetaporkedeusker foi - e continua a ser... - a matriz, o "baptismo de fogo". Depois veio o António de Sousa onde me propus publicar, online, toda a obra poética do meu avô, o Mumbles onde vou tentando, em colaboração com a Associação Animal, dar largas a todo o amor que dedico aos animais não humanos, o Prémios e Medalhas quando descobri que o melhor era mesmo criar um blog só para "guardar" os presentes com que os meus amigos blogonautas me iam contemplando, o As montanhas que os ratos vão parindo , um blog criado num impulso para a poesia de rima livre e os vídeos do youtube e, finalmente, o Liberdades Poéticas , infelizmente muito pouco actualizado por falta de tempo, dedicado a uma linha de poesia mais contemporânea. Há ainda a Galeria Online, onde poderão ver algumas das minhas telas e encomendar trabalhos de originais digitalizados, em diversos tamanhos, sobre tela.
Se os dias tivessem, no mínimo, 72 horas, se a minha saúde o permitisse e se tivesse acesso à internet na minha casa, ainda tentaria pelo menos mais um blog dedicado à prosa e, quem sabe, um dia, mais um outro dedicado às crianças. Seria uma experiência nova para mim. É muito frequente eu sentir-me frustrada - só um bocadinho... - por sentir que a realidade física não consegue acompanhar as minhas necessidades criativas. 

Quem escreve gosta de ler. Que tipo de leituras prefere ?
Gosto muito de ler mas confesso que leio muito pouco desde que iniciei o Poetaporkedeusker, em Janeiro de 2008. São as tais incompatibilidadezinhas entre o que se quer produzir e o que a realidade nos permite fazer...
Gosto muito, mesmo muito, de tudo o que li de José Saramago. Apaixonei-me pela sua escrita com as “Crónicas deste Mundo e do Outro”, editadas pela Caminho na década de setenta, se não estou em erro. Mas o que mais me cativa são as personagens que ele constrói. Tudo é magnífico. A narrativa empolga-nos, a descrição faz-nos visualizar - a mim faz-me... - como se de um filme se tratasse, mas aqueles seus "filhos da escrita", as personagens, são criaturas extraordinariamente bem conseguidas! Não me recordo, em toda a minha vida, de ter contactado, através da leitura, personalidades tão bem retratadas... tão bem tratadas.
Jack London e Júlio Verne foram os grandes heróis da minha infância e adolescência e os meus dois livros de referência, nesse tempo e ainda hoje, foram "Os Bichos", do Torga e o
"Le Petit Prince" de Saint Exupéry.

Fale-nos do livro que publicou
Ah! O "Poeta Porque Deus Quer"... mas como posso eu encontrar palavras para definir toda a felicidade que essa publicação me trouxe? Se gostei da experiência? É claro que adorei a experiência! A Autores concretizou um sonho meu. Um sonho que sempre me pareceu muito longínquo... eu sentia, sempre, a necessidade de escrever, mas estava convencidíssima de que jamais teria a possibilidade de publicar um livro durante a minha vida. Passava-me, de quando em quando, pela cabeça a ideia de que talvez um dia, anos depois de eu morrer, um ou outro dos meus poemas viessem a fazer parte de uma colectânea qualquer. Mesmo assim teria de contar com o elemento sorte. Muito honestamente, foi sempre assim que eu imaginei as coisas...

Que projectos para o futuro ?
Não sei viver sem escrever. Escreverei sempre. Não é muito fácil fazer grandes projectos quando se vive uma situação de extrema e prolongada instabilidade económica. Não me refiro - apenas - à crise económica mundial. Refiro-me à minha crise económica pessoal que promete arrastar-se ao longo de toda a minha vida... prefiro não fazer grandes planos e concentrar-me cada vez mais no trabalho do dia a dia. Eu vou produzindo e, se surgir uma nova oportunidade, o essencial estará feito. Mas porque não sonhar um pouco mais? Gostaria de publicar mais alguns livros, sim.


Quer acrescentar mais alguma coisa ?
A todos os que gostam de escrever, claro! Não desistam, mesmo que, por vezes, a inspiração pareça faltar. Desde que vocês sejam realmente escritores, ela voltará sempre!
E se sentem, se acreditam que têm um dom, usem-no, trabalhem-no! Nós não somos só o que fazemos aqui e agora. Somos também as "pegadas" que por cá deixarmos...

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

M.Correia

 

Autora dos textos (como ela gosta de lhes chamar) do "Papoilas de Janeiro", publicado em Janeiro de 2009 com desenhos de TCAlves, é uma presença activa na blogosfera, colaborando em diversas iniciativas colectivas. Dos blogues que mantém destacamos o Repensando.


Fátima, fale-nos de si...

Tenho escrito por aí que sou nascida em Lagos, no Algarve, mas minha alma (eu!) ficou angolana pelos anos que passei nessa terra, entre os dez e os dezoito, pouca coisa para quem já viveu quase oito vezes isso e passou pela capital onde estudou e retornou, acasos de vida, à terra de origem onde leccionou e teve dois filhos, machos, de que pergunta: como será ter mais, se cada um já é a menina dos meus olhos.

Quando começou a escrever ?

Poderia dizer que desde sempre e não mentiria pois sempre me vejo a fazer lautos diários que me deram muito jeito de memória em momentos vários de vida. Mas escrever como, creio, me é perguntado, desse modo de fazer contos, escrever historietas com ar de literatura, isso, sinceramente foi mesmo quando comecei o blog que me deu mais gana. Também é verdade que houve uma conjuntura de vida propícia à escrita - acontecimentos que precisavam de ser exorcizamos em criatividade, antídoto único, acho para a loucura. E escrevia, como o faço ainda e nem sei se tenho tempo, vontade ou jeito para mudar: escrevo do que sei e é muito ou pouco conforme a perspectiva. Escrevo sobre mim de um modo indirecto. Eu sei que é assim, não vale a pena dizer de outro modo. Tento outros temas, outras formas, mas não é onde me sinto a dar o meu melhor. E gosto de escrever: muito. Gosto de sentir aquele naco de gente a sair-me dos dedos, dá-me um prazer repousante.

Quem escreve gosta de ler. Que tipo de leituras prefere ?
Leio pouco para o que gostaria de fazer, sou pouco disciplinada (quero eu dizer que sou muito indisciplinada rss) Leio ficção. Sempre. E nem leio ficção científica, que não tomei o gosto. Leio de tudo, mas não fujo ao que anda no mercado ou é clássico e releio muitas vezes porque esqueço, porque me fica apenas a sombra e nunca o pormenor, a personagem, a frase oportuna para citar.
Li, anos a fio, a Marguerite Duras. E depois reli. E não encontro outra autora/autor que me deu o que ela me dá nos seus romances - sobriedade na escrita e uma ternura agreste, intensa, verdadeira, visceral e muito feminina, que eu acho que a escrita é diferente nas mulheres se bem que, por vezes, encontre esse não sei o quê em escrita de homens e fico satisfeita, sabes? “Une barrage contre le pacifique”, mas também “Des jours entières sur les arbres” e sem dúvida “Les petits chevaux de Tarquinia”. (li em francês, sim) Não sei dizer mais e gostava muito. É sem dúvida a minha escritora e, no entanto, nunca simpatizei com ela.
Gabriel Garcia Marquez é o homem das personagens cheias de sobrenatural (um sobrenatural cheio de humor) e é o meu escritor da cor em escrita: eu penso nos livros dele como uma feira imensa de cor e gente. E nem pelos romances de muitas letras, que os li todos, mas pela grandeza de dizer e pelo que é possível fazer com um tema pequeno, se se escreve magistralmente como ele escreve: e falo de “Crónica de uma morte anunciada”.
Descobri recentemente (ou redescobri, que tinha por ali perdido um Quincas Borba muito esquecido) esse portento da escrita que é Machado de Assis. De Saramago li pouco: “O Memorial do Convento” que me apanhou pela novidade e depois o "Levantados do chão". Detestei o filme e o livro "Ensaio sobre a cegueira" e nem vou dizer o porquê, que levara tempo e era controverso.
Mas nada que se compare ao gozo que me dá ler Mia Couto a espremer o alfabeto para inventar o termo mais correcto para doar-nos o cheiro ou o sentimento de terras que a gente não conhece. E não cito um ou outro título, mas imaginem aqui os romances todos desse moçambicano.
Não leio romance histórico, mas gosto de ler Amin Maaloufe. Muito. E de todos os que li, refiro “O ano da morte de Beatriz”.
Olha que estou a falar do que me vem à cabeça de momento, que faltam tantos, mas estes seriam sempre citados, além de Borges e Poe, Hess e Whitman e os contos de Tolstoi de leitura inebriante e recente, que os portentosos romances são coisa que li na juventude.
E aquelas coisas únicas porque do autor não repetimos não fosse haver desilusão: “O admirável mundo novo” do Huxley pela mensagem e não pela escrita, e aquele doce de literatura e sentimento num delineamento social entrelaçado com o fantasmagórico: “Meu querido primeiro amor” de Zoe Valdês. Aconselho. Tal e qual um outro, desconhecido, coisa de dizer: vou ler e descobrir um modo diverso de contar, intenso na caracterização do ambiente e do personagem : “Jogos da idade tardia” de Luís Landero.
Páro?! Joaquim Pessoa de quem amo a poesia. E Ary...
Fico por aqui.

Fale-nos do livro que publicou 
Foi culpa da editora que me provocou. E eu demorei, mas lá me incentivei com a ajuda do ilustrador, meu estimado e paciente Amadeu. Gostei muito. Gostei de sentir que gostavam que eu tivesse publicado. Acho que foi o que me deu mais prazer foi o prazer dos outros, quando do lançamento. E gostei muito que me tivessem lido em papel.
E adorei, foi uma experiência única, ter alguém a ler o que escrevi e a desenhar para essas coisas ditas: é como se te penetrassem a alma. É muito, muito digno de ser vivido e eu muito agradeço.
Houve uma coisa (que vai passando, mas ainda não se foi) que é sentir que não me aparto daquele livro, que sinto uma coisa estranha assim como se fosse alguém que partiu e me devia dizer alguma coisa e não me diz nada e eu sem saber notícias sofro aqui calada: um sentimento estranho.

Que projectos para o futuro ?
Escrever, eu escrevo e publico no blog, quer prosa, quer poesia (menos)
E ando sempre a fazer projectos, mas...
Penso organizar mais material, mas agora mais distanciado de mulheres, mais temas que não sendo de opinião, sejam por lá. E eróticos.
Queres publicar?

Quer acrescentar mais alguma coisa ?
Apenas obrigada.
E aos que gostam de escrever, que escrevam, que a gente deve fazer sobretudo o que gosta nesta vida!

Nova parceria

        A Autores foi criada para realizar o sonho de muitos: ver as suas palavras em forma de livro. Não prometemos fama e glória, ma...