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Autora dos textos (como ela gosta de lhes chamar) do "Papoilas de Janeiro", publicado em Janeiro de 2009 com desenhos de TCAlves, é uma presença activa na blogosfera, colaborando em diversas iniciativas colectivas. Dos blogues que mantém destacamos o Repensando. |
Fátima, fale-nos de si...
Tenho escrito por aí que sou nascida em Lagos, no Algarve, mas minha alma (eu!) ficou angolana pelos anos que passei nessa terra, entre os dez e os dezoito, pouca coisa para quem já viveu quase oito vezes isso e passou pela capital onde estudou e retornou, acasos de vida, à terra de origem onde leccionou e teve dois filhos, machos, de que pergunta: como será ter mais, se cada um já é a menina dos meus olhos.
Quando começou a escrever ?
Poderia dizer que desde sempre e não mentiria pois sempre me vejo a fazer lautos diários que me deram muito jeito de memória em momentos vários de vida. Mas escrever como, creio, me é perguntado, desse modo de fazer contos, escrever historietas com ar de literatura, isso, sinceramente foi mesmo quando comecei o blog que me deu mais gana. Também é verdade que houve uma conjuntura de vida propícia à escrita - acontecimentos que precisavam de ser exorcizamos em criatividade, antídoto único, acho para a loucura. E escrevia, como o faço ainda e nem sei se tenho tempo, vontade ou jeito para mudar: escrevo do que sei e é muito ou pouco conforme a perspectiva. Escrevo sobre mim de um modo indirecto. Eu sei que é assim, não vale a pena dizer de outro modo. Tento outros temas, outras formas, mas não é onde me sinto a dar o meu melhor. E gosto de escrever: muito. Gosto de sentir aquele naco de gente a sair-me dos dedos, dá-me um prazer repousante.
Quem escreve gosta de ler. Que tipo de leituras prefere ?
Leio pouco para o que gostaria de fazer, sou pouco disciplinada (quero eu dizer que sou muito indisciplinada rss) Leio ficção. Sempre. E nem leio ficção científica, que não tomei o gosto. Leio de tudo, mas não fujo ao que anda no mercado ou é clássico e releio muitas vezes porque esqueço, porque me fica apenas a sombra e nunca o pormenor, a personagem, a frase oportuna para citar.
Li, anos a fio, a Marguerite Duras. E depois reli. E não encontro outra autora/autor que me deu o que ela me dá nos seus romances - sobriedade na escrita e uma ternura agreste, intensa, verdadeira, visceral e muito feminina, que eu acho que a escrita é diferente nas mulheres se bem que, por vezes, encontre esse não sei o quê em escrita de homens e fico satisfeita, sabes? “Une barrage contre le pacifique”, mas também “Des jours entières sur les arbres” e sem dúvida “Les petits chevaux de Tarquinia”. (li em francês, sim) Não sei dizer mais e gostava muito. É sem dúvida a minha escritora e, no entanto, nunca simpatizei com ela.
Gabriel Garcia Marquez é o homem das personagens cheias de sobrenatural (um sobrenatural cheio de humor) e é o meu escritor da cor em escrita: eu penso nos livros dele como uma feira imensa de cor e gente. E nem pelos romances de muitas letras, que os li todos, mas pela grandeza de dizer e pelo que é possível fazer com um tema pequeno, se se escreve magistralmente como ele escreve: e falo de “Crónica de uma morte anunciada”.
Descobri recentemente (ou redescobri, que tinha por ali perdido um Quincas Borba muito esquecido) esse portento da escrita que é Machado de Assis. De Saramago li pouco: “O Memorial do Convento” que me apanhou pela novidade e depois o "Levantados do chão". Detestei o filme e o livro "Ensaio sobre a cegueira" e nem vou dizer o porquê, que levara tempo e era controverso.
Mas nada que se compare ao gozo que me dá ler Mia Couto a espremer o alfabeto para inventar o termo mais correcto para doar-nos o cheiro ou o sentimento de terras que a gente não conhece. E não cito um ou outro título, mas imaginem aqui os romances todos desse moçambicano.
Não leio romance histórico, mas gosto de ler Amin Maaloufe. Muito. E de todos os que li, refiro “O ano da morte de Beatriz”.
Olha que estou a falar do que me vem à cabeça de momento, que faltam tantos, mas estes seriam sempre citados, além de Borges e Poe, Hess e Whitman e os contos de Tolstoi de leitura inebriante e recente, que os portentosos romances são coisa que li na juventude.
E aquelas coisas únicas porque do autor não repetimos não fosse haver desilusão: “O admirável mundo novo” do Huxley pela mensagem e não pela escrita, e aquele doce de literatura e sentimento num delineamento social entrelaçado com o fantasmagórico: “Meu querido primeiro amor” de Zoe Valdês. Aconselho. Tal e qual um outro, desconhecido, coisa de dizer: vou ler e descobrir um modo diverso de contar, intenso na caracterização do ambiente e do personagem : “Jogos da idade tardia” de Luís Landero.
Páro?! Joaquim Pessoa de quem amo a poesia. E Ary...
Fico por aqui.
Fale-nos do livro que publicou
Foi culpa da editora que me provocou. E eu demorei, mas lá me incentivei com a ajuda do ilustrador, meu estimado e paciente Amadeu. Gostei muito. Gostei de sentir que gostavam que eu tivesse publicado. Acho que foi o que me deu mais prazer foi o prazer dos outros, quando do lançamento. E gostei muito que me tivessem lido em papel.
E adorei, foi uma experiência única, ter alguém a ler o que escrevi e a desenhar para essas coisas ditas: é como se te penetrassem a alma. É muito, muito digno de ser vivido e eu muito agradeço.
Houve uma coisa (que vai passando, mas ainda não se foi) que é sentir que não me aparto daquele livro, que sinto uma coisa estranha assim como se fosse alguém que partiu e me devia dizer alguma coisa e não me diz nada e eu sem saber notícias sofro aqui calada: um sentimento estranho.
Que projectos para o futuro ?
Escrever, eu escrevo e publico no blog, quer prosa, quer poesia (menos)
E ando sempre a fazer projectos, mas...
Penso organizar mais material, mas agora mais distanciado de mulheres, mais temas que não sendo de opinião, sejam por lá. E eróticos.
Queres publicar?
Quer acrescentar mais alguma coisa ?
Apenas obrigada.
E aos que gostam de escrever, que escrevam, que a gente deve fazer sobretudo o que gosta nesta vida!
Desejo-lhe a maior boa sorte na sua carreira literária!
ResponderEliminarBeijinhos
Cláudia Moreira
Parabéns à autora e à editora que um dia espero que também me realize os sonhos:)
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